Dicas

Livro sem texto escrito?

“É difícil ficar sozinho com a imagem. Invariavelmente, as imagens se apresentam na companhia de algum tipo de legenda. Cada ilustração com seu texto de referência, cada quadrinho com seu balão, cada foto com sua legenda e cada quadro com seu título correspondente.”¹

A ambiguidade natural da imagem incomoda a necessidade de clareza, tão valorizada pelo ser humano. Mas, uma vez superado esse desconforto inicial, nos deparamos com o potencial único do livro-imagem, que possibilita ao leitor a construção da sua própria narrativa, desenvolvendo habilidades cognitivas essenciais no processo ativo de interpretação. Ao se deparar com essas obras, a criança tem a liberdade de criar significados únicos, explorando os múltiplos caminhos que as imagens oferecem.

A indiscutível habilidade dos autores de bons livros ilustrados – ao construir uma narrativa inteira sem precisar de palavras, utilizando somente desenhos, às vezes apenas traços, formas e cores – é diretamente proporcional à expertise dos seus leitores, pois a interpretação do livro-imagem é mais complexa exatamente por encontrar-se privada do apoio oferecido pelas palavras, contribuindo para o desenvolvimento da percepção estética e crítica de quem lê.

Por fim, deixo vocês com a reflexão de Fanny Abramovich:
“É tão bom saborear e detectar tanta coisa que nos cerca usando esse instrumento nosso tão primeiro, tão denotador de tudo: a visão. Talvez seja um jeito de não formar míopes mentais…”²


Referências:

¹ LARTITEGUI, Ana G. Páginas mudas, livros eloquentes: Tramas visuais e discurso. São Paulo: Livros da Matriz, 2023, p. 9.
² ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 2009, p. 33.