Livros

Todo livro ilustrado é um “livro ilustrado”?

Quando falamos em livros para crianças, é comum usar a expressão “livro ilustrado” para qualquer obra que tenha imagens. Mas existe uma diferença importante entre livro com ilustrações e livro ilustrado (ou livro-álbum).

Essa diferença muda completamente a forma como lemos os livros.

No livro com ilustrações o texto escrito por si só dá sentido à história, sustenta toda a narrativa. As ilustrações estão ali para representar por meio de imagens aquilo que já está narrado pelas palavras. Ou seja, se alguém ler esse texto em voz alta, sem mostrar as ilustrações, a história continuará compreensível.

Por exemplo, se alguém conta as histórias de João e Maria e Chapeuzinho Vermelho apenas lendo um texto escrito, a narrativa estará completa, ela não precisa das imagens, porque aqui, a história acontece na palavra. As imagens, quando presentes, oferecem uma interpretação visual daquela narrativa. Um ilustrador pode criar uma floresta sombria, outro pode escolher cores fortes ou traços minimalistas. Cada artista transmite a sua visão do texto, por meio das suas ilustrações.

Há livros com ilustrações belíssimas, em que o olhar do artista transforma nossa experiência com um texto já conhecido. A imagem pode criar atmosfera, sugerir emoções, intensificar o medo, o humor, o mistério ou a beleza de uma cena.

João e Maria visto por Arthur Rackham

João e Maria visto por Lorenzo Mattotti

Ambas as ilustrações transmitem a tensão da iminente situação de perigo em que as crianças se encontram. Mattotti utilizou o recurso do preto e branco, nos colocando numa atmosfera sombria durante toda a narrativa e inovando na representação de uma história infantil quase sempre apresentada ao leitor com muitas cores e traços precisos. De outro lado temos o colorido de Rackham, e um estilo mais clássico, com muitos detalhes nos desenhos, mas que não retira a atmosfera misteriosa da cena, sobretudo representada na floresta e na figura assustadora da bruxa. Dois sambas para um mesmo enredo.

Já no livro ilustrado, a relação entre palavra e imagem é outra.

Nesse tipo de obra, a narrativa acontece de maneira articulada entre texto e imagem, porque as ilustrações contam parte da história, sem as quais a narrativa não se sustenta. Às vezes, a imagem conta o que o texto omite, outras contradiz o texto. De modo que a leitura da página implica na observância das palavras e das imagens.

Vamos usar, como exemplo, um livro ilustrado lançado em 2021, em que o texto foi criado pelo escritor Tino Freitas e as ilustrações ficaram a cargo de Odilon Moraes.

Se lêssemos somente o texto, seria assim:

“Era uma vez um menino com um superpoder:

Na sua família, só ele via os invisíveis.

Era assim ao sair de casa com seu pai pela manhã,

Sempre que sua mãe o deixava em frente à escola (…)”

Agora, vamos ler a história com a presença das ilustrações:





As ilustrações narram parte significativa da história. É a imagem, e não o texto escrito, que nos conta que o superpoder do menino é enxergar as pessoas “invisíveis” na sociedade.

A obra trata da invisibilidade sob várias perspectivas. Nos aponta a invisibilidade das pessoas em situação de rua, das vulneráveis economicamente, das crianças e dos idosos. Retrata a invisibilidade provocada pelas multidões, onde é necessário aguçar o olhar para conseguir enxergar. Denuncia a solidão de quem se sente invisível e, sobretudo, oportuniza uma reflexão sobre essa arrogância que (nos) impede de enxergar o outro.

O livro é reflexivo, o tema é denso, mas é uma criança que protagoniza o enredo da história, e então somos envolvidos pela sua sensibilidade. A ideia de utilizar um superpoder, algo retirado do mundo da fantasia, próprio da infância, também é um recurso que traz alguma leveza à leitura.

Esse é o resultado do superpoder que possuem a palavra e a imagem, quando utilizadas por dois talentosos artistas.

No livro ilustrado, a história é contada por meio da palavra e da imagem. Pode ser relevante, ainda, para a compreensão da narrativa, a cor, o enquadramento, o branco da página, a repetição, o contraste, o silêncio.

É por isso que o livro ilustrado com pouco texto, muitas vezes exige uma leitura mais sofisticada. Já que, em bons livros ilustrados, nada está ali por acaso: a posição de um personagem na página, o tamanho da imagem, a escolha de uma cor, a ausência de cenário, a repetição de um objeto, a mudança de perspectiva, tudo isso faz parte da construção da narrativa.

Por isso publicamos livros ilustrados

Porque apostamos em uma literatura que respeita a inteligência da criança. Acreditamos que a infância não precisa de livros óbvios ou excessivamente explicativos. Crianças podem lidar com sutilezas, perceber ambiguidades, serem tocadas pelo silêncio. Podem formular hipóteses diante de uma imagem e voltar ao mesmo livro muitas vezes e descobrir algo novo.

Por isso, nem todo livro com ilustrações é um livro ilustrado. E um não é melhor do que o outro.

Mas escolhemos publicar livros ilustrados porque entendemos que quando texto e imagem se unem para contar uma história que nenhum dos dois contaria sozinho, estamos diante de uma das formas mais sofisticadas da literatura para crianças. E também para adultos.